"A FELICIDADE ESTÁ NO AMOR"
(texto de Paulo Villalva)
Pedro é pedreiro. Acorda todos os dias às quatro da matina. Alzira, sua
mulher, prepara a marmita do marido enquanto ele se arruma no banheiro.
Pedro beija os três filhos que dormem a sono solto, abraça a mulher,
deseja um bom dia e parte com o seu Corcel 75, cheio de apetrechos. No
caminho para o trabalho recolhe Antônio e Durval, seus ajudantes de
obras.
Alex é gerente de uma grande empresa. Assim como Pedro, acorda às quatro horas e toma uma ducha quentinha para se manter
bem disposto. Enquanto Laura, sua esposa, dorme profundamente, Alex
prepara seu break-fast composto de torradas, geleia, manteiga, leite e
cereais. Passa pelo quarto das duas meninas, depois no dos dois meninos e
finalmente espia Laura ressonando sob os lençóis macios e sente
desejos. Em seguida, toma o elevador, liga sua Mercedes na garagem e sai
para o trabalho.
Pedro e seus amigos encontram dificuldades no
transito mas conseguem chegar a tempo de pegar o começo da fila no
condomínio onde constroem uma casa. Na portaria, são checados a validade
dos documentos e o porta malas do Corcel 75 tem de ser aberto para o
vigia dar uma espiada.
Alex dirige contente, ao som de suas músicas
preferidas. Na empresa a equipe do escritório já está a postos para a
primeira reunião do dia. Depois virão outras, com os gerentes, com os
clientes, com os investidores, com a diretoria. No final da tarde estará
exausto.
Pedro abre os portões da obra e manda que seus ajudantes
preparem a massa enquanto ajusta os andaimes. Vai ser um dia todo de
assentamento de tijolos das alvenarias do pavimento superior. Enquanto
trabalha, houve músicas de louvor no seu radinho Xing-ling.
A esposa
de Alex acordou às oito horas. Os filhos já haviam saído para a escola.
Marieta, a governanta, preparou as crianças e as despachou no ônibus
escolar. O dia de Laura vai ser cheio. Ginastica, banho de piscina e
massagem pela manhã. Após o almoço, marcou hora no cabeleireiro para
depois se encontrar com amigas para um chá no Shopping Caravelas, à
beira mar.
Alzira preparou o café das crianças, arrumou seus
uniformes, as vestiu e penteou e depois foi leva-las à escola do bairro.
Só os dois maiores, porque o bebê ainda era ela quem cuidava, tão
magrinho estava. Depois de colocar o Juninho no carrinho e conter o seu
choro com a chupeta azul, despejou a roupa suja no tanque de lavar para o
molho, enquanto limpava as botas do marido, sujas de barro e cimento.
Alex trabalhou arduamente, participou de várias reuniões, mil assuntos
para resolver, no final da tarde estava exausto. Ligou para a esposa,
estava ocupada, falariam mais tarde.
Pedro gostava do seu trabalho. A
cada duas horas parava uns minutos para tomar um gole de água e uma
canequinha de café. Comeu o conteúdo da marmita e agradeceu a Deus.
Lembrou de ligar para a mulher e também agradeceu por ela existir e
cuidar dos filhos.
Quase noite, Alex, Pedro e os ajudantes já
voltavam para casa. O Corcel 75 teve um pneu furado, mas logo fizeram a
troca pelo estepe, bem careca, e continuaram. A Mercedes era nova, lataria blindada,
ar condicionado, uma beleza de automóvel.
Laura parecia feliz, os
filhos iam muito bem na escola, não davam nenhum trabalho. Murilo e
Evandro curtiam sua guitarra e bateria no estúdio; Maristela estava
envolta com uma pesquisa no seu lap-top e Dulce , a caçula, divertia-se
com seu smart-phone.
Alzira preparou o feijãozinho preto que o
marido adorava comer com farinha no jantar. Alaorzinho e Ritinha faziam
seus deveres escolares enquanto o Pedrinho brincava no cercadinho de
madeira que o pai construíra.
Pedro chegou, guardou o corcel 75 nos
fundos do quintal, tirou as roupas e as botas sujas e as colocou no
tanque de lavar. Beijou a esposa, depois os filhos e foi para o banho.
Cantarolou algumas canções da igreja enquanto a esposa preparava a mesa.
Alex chegou estressado, tomou seu whisky e dirigiu-se ao banheiro.
Demorou algum tempo lá, pensando na vida e nos negócios. Saiu mais leve,
beijou Laura e perguntou pelas crianças. Estavam todos bem e a noite
prometia. Seus desejos estavam à flor da pele, testosterona em alta.
Após o jantar, Pedro sentou-se no sofá puído para assistir a pregação
da Universal. Pedrinho no colo e os outros dois, um de cada lado do pai.
Alzira foi limpar o banheiro que o marido havia molhado. Estava feliz
por mais um dia em que ele voltava para casa sem ferimentos. Dava graças
a Deus por esta dádiva.
Laura entrou na suíte e viu que Alex
deixara cair a toalha do banho, também não fechara a porta do closet e
tampouco colocou o frasco de shampoo no devido lugar. Ao retornar à
sala, chamou a atenção do marido, que estava a cada dia mais relapso.
Alex não conseguiu assistir ao noticiário da Globo, o seu preferido. A
briga foi inevitável e Alex foi para o escritório , terminar o relatório
do dia.
Às nove horas, Pedro e Alzira desligaram a televisão,
colocaram as crianças para dormir e se recolheram, depois de orarem
todos juntos na sala. Fizeram amor voluptuosamente e dormiram de
conchinha até as quatro da manhã.
Laura deitou-se às onze horas,
depois de terminada a última novela. Alex continuou no escritório e as
crianças, nem se sabe delas. Com certeza estariam acordadas ainda,
assistindo TV nos seus dormitórios.
Alex tomou mais uma dose de
whisky e foi deitar-se, já passava da meia noite. Alex e Laura ainda
dividem a mesma cama, mas cada um do seu lado, ela na esquerda, ele na
direita. Até que um novo dia comece e as coisas melhorem.