Páginas

domingo, 20 de agosto de 2017

CONTOS CURTOS


"A FELICIDADE ESTÁ NO AMOR"

(texto de Paulo Villalva)

Pedro é pedreiro. Acorda todos os dias às quatro da matina. Alzira, sua mulher, prepara a marmita do marido enquanto ele se arruma no banheiro. Pedro beija os três filhos que dormem a sono solto, abraça a mulher, deseja um bom dia e parte com o seu Corcel 75, cheio de apetrechos. No caminho para o trabalho recolhe Antônio e Durval, seus ajudantes de obras.
Alex é gerente de uma grande empresa. Assim como Pedro, acorda às quatro horas e toma uma ducha quentinha para se manter
bem disposto. Enquanto Laura, sua esposa, dorme profundamente, Alex prepara seu break-fast composto de torradas, geleia, manteiga, leite e cereais. Passa pelo quarto das duas meninas, depois no dos dois meninos e finalmente espia Laura ressonando sob os lençóis macios e sente desejos. Em seguida, toma o elevador, liga sua Mercedes na garagem e sai para o trabalho.
Pedro e seus amigos encontram dificuldades no transito mas conseguem chegar a tempo de pegar o começo da fila no condomínio onde constroem uma casa. Na portaria, são checados a validade dos documentos e o porta malas do Corcel 75 tem de ser aberto para o vigia dar uma espiada.
Alex dirige contente, ao som de suas músicas preferidas. Na empresa a equipe do escritório já está a postos para a primeira reunião do dia. Depois virão outras, com os gerentes, com os clientes, com os investidores, com a diretoria. No final da tarde estará exausto.
Pedro abre os portões da obra e manda que seus ajudantes preparem a massa enquanto ajusta os andaimes. Vai ser um dia todo de assentamento de tijolos das alvenarias do pavimento superior. Enquanto trabalha, houve músicas de louvor no seu radinho Xing-ling.
A esposa de Alex acordou às oito horas. Os filhos já haviam saído para a escola. Marieta, a governanta, preparou as crianças e as despachou no ônibus escolar. O dia de Laura vai ser cheio. Ginastica, banho de piscina e massagem pela manhã. Após o almoço, marcou hora no cabeleireiro para depois se encontrar com amigas para um chá no Shopping Caravelas, à beira mar.
Alzira preparou o café das crianças, arrumou seus uniformes, as vestiu e penteou e depois foi leva-las à escola do bairro. Só os dois maiores, porque o bebê ainda era ela quem cuidava, tão magrinho estava. Depois de colocar o Juninho no carrinho e conter o seu choro com a chupeta azul, despejou a roupa suja no tanque de lavar para o molho, enquanto limpava as botas do marido, sujas de barro e cimento.
Alex trabalhou arduamente, participou de várias reuniões, mil assuntos para resolver, no final da tarde estava exausto. Ligou para a esposa, estava ocupada, falariam mais tarde.
Pedro gostava do seu trabalho. A cada duas horas parava uns minutos para tomar um gole de água e uma canequinha de café. Comeu o conteúdo da marmita e agradeceu a Deus. Lembrou de ligar para a mulher e também agradeceu por ela existir e cuidar dos filhos.
Quase noite, Alex, Pedro e os ajudantes já voltavam para casa. O Corcel 75 teve um pneu furado, mas logo fizeram a troca pelo estepe, bem careca, e continuaram. A Mercedes era nova, lataria blindada, ar condicionado, uma beleza de automóvel.
Laura parecia feliz, os filhos iam muito bem na escola, não davam nenhum trabalho. Murilo e Evandro curtiam sua guitarra e bateria no estúdio; Maristela estava envolta com uma pesquisa no seu lap-top e Dulce , a caçula, divertia-se com seu smart-phone.
Alzira preparou o feijãozinho preto que o marido adorava comer com farinha no jantar. Alaorzinho e Ritinha faziam seus deveres escolares enquanto o Pedrinho brincava no cercadinho de madeira que o pai construíra.
Pedro chegou, guardou o corcel 75 nos fundos do quintal, tirou as roupas e as botas sujas e as colocou no tanque de lavar. Beijou a esposa, depois os filhos e foi para o banho. Cantarolou algumas canções da igreja enquanto a esposa preparava a mesa.
Alex chegou estressado, tomou seu whisky e dirigiu-se ao banheiro. Demorou algum tempo lá, pensando na vida e nos negócios. Saiu mais leve, beijou Laura e perguntou pelas crianças. Estavam todos bem e a noite prometia. Seus desejos estavam à flor da pele, testosterona em alta.
Após o jantar, Pedro sentou-se no sofá puído para assistir a pregação da Universal. Pedrinho no colo e os outros dois, um de cada lado do pai. Alzira foi limpar o banheiro que o marido havia molhado. Estava feliz por mais um dia em que ele voltava para casa sem ferimentos. Dava graças a Deus por esta dádiva.
Laura entrou na suíte e viu que Alex deixara cair a toalha do banho, também não fechara a porta do closet e tampouco colocou o frasco de shampoo no devido lugar. Ao retornar à sala, chamou a atenção do marido, que estava a cada dia mais relapso. Alex não conseguiu assistir ao noticiário da Globo, o seu preferido. A briga foi inevitável e Alex foi para o escritório , terminar o relatório do dia.
Às nove horas, Pedro e Alzira desligaram a televisão, colocaram as crianças para dormir e se recolheram, depois de orarem todos juntos na sala. Fizeram amor voluptuosamente e dormiram de conchinha até as quatro da manhã.
Laura deitou-se às onze horas, depois de terminada a última novela. Alex continuou no escritório e as crianças, nem se sabe delas. Com certeza estariam acordadas ainda, assistindo TV nos seus dormitórios.
Alex tomou mais uma dose de whisky e foi deitar-se, já passava da meia noite. Alex e Laura ainda dividem a mesma cama, mas cada um do seu lado, ela na esquerda, ele na direita. Até que um novo dia comece e as coisas melhorem.