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sábado, 19 de agosto de 2017

CRÔNICAS ESCOLHIDAS



O COMBUSTÍVEL DA AUTOCONFIANÇA

Desarrumada e mal vestida, a menina negra, magra pela fome e não pela anorexia, desceu o morro carioca para tentar a sorte no programa de calouros de Ary Barroso. Era o momento áureo do rádio que, dos anos de 1930 a 1950, revelou grandes nomes da MPB.
Na fila de inscrições estavam lindas jovens bem vestidas e a menina favelada olhava para elas sem qualquer medo. Tinha apenas treze anos e já era mãe. Seu bebê estava doente e ela precisava fazer algo para conseguir algum dinheiro. No corredor os calouros aguardavam o chamado e em seguida entravam trêmulos.
- Elza Gomes da Conceição, sua vez! Após ouvir seu nome, a menina cruzou a porta do estúdio. Cerca de mil pessoas a aguardavam. O programa era o maior sucesso na época e no palco estava o grande Ary Barroso, autor de "Aquarela do Brasil", pois ele próprio acompanhava os calouros ao piano.
Ao ver a menina com no máximo 35 quilos, subindo ao palco completamente desengonçada, usando uma roupa emprestada e ajustada com alfinetes para conter as sobras de pano, duas maria-chiquínhas, a plateia explodiu na risada.


O apresentador do programa arrumou os óculos e disse, friamente:
- Aproxime-se. Ela ignorou as gargalhadas e foi até ele.
- O que você veio fazer aqui? - perguntou intrigado.
- Ué, eu vim cantar. - disse ela com o ar mais inocente desse mundo.
- Mas quem disse a você que você canta? - Eu! - falou com voz firme.
- Diga-me uma coisa: de que planeta você veio? - questionou de forma ácida.
Ela respirou fundo e lhe respondeu: Eu vim do planêta-fome, seu Ary. Do mesmo planeta de onde o senhor veio.
Nesse momento o auditório se calou. Ali estava uma adolescente cheia de bravura, desafiando o grande ícone da música brasileira, lembrando que ele próprio também tivera um berço pobre e que havia passado por dificuldades acerbas como as que ela no momento passava.
Silencioso, Ary apontou para ela o microfone e deslizou seus dedos no teclado em seguida.
A menina então começou a cantar com a voz afinada e ao mesmo tempo arranhada, rouca, única, apresentando efeitos que ninguém jamais tinha ouvido.
No final, o mesmo público que riu tanto dela em sua chegada vibrou de emoção e encheu o estúdio de palmas. Ela as recebeu chorando, abraçada com Ary que, igualmente muito emocionado, disse:
- Senhoras e senhores, nesse exato momento acaba de nascer uma estrela.
Elza Soares, em seu livro "Cantando para não Enlouquecer", narra sua história repleta de momentos de superação como esse.
Podemos nos perguntar: o que faz alguém como ela chegar à vitória, vencendo obstáculos tidos com intransponíveis, atravessando oceanos de dificuldades?
O que move uma alma na direção da excelência em qualquer área, fazendo com que até mesmo os maiores problemas se transformem numa espécie de combustível para vôos mais altos?
O que produz essa certeza de que não há porque recuar e que vale seguir adiante?
Resposta: Auto-confiança.
Ter convicção do nosso próprio potencial e sentir que é possível fazer algo valioso, com aquilo que já guardamos em nosso interior, é uma espécie de elemento mágico que promove a química do sucesso.
Pessoas que não acreditam em si mesmas acabam não deixando aflorar o imenso poder que já possuem.
Mas aqueles que têm convicção das suas habilidades e talentos e que, por outro lado, também são capazes de reconhecer seus pontos fracos, se colocam no caminho do crescimento. Ter auto-conhecimento para perceber aquilo que podemos melhorar não significa sentir-se pequeno, fraco, mas representa poder de percepção para melhorar continuamente.
Portanto, se confiamos em nós mesmos podemos ver, com tranqüilidade, aquilo que nos falta, ao mesmo tempo em que notamos aquilo que já possuímos de bom.
Esse duplo foco nos desperta uma grande energia na busca dos nossos propósitos.
Como dizia Henry Ford: "Se você acredita que pode ou se você acredita que não pode, de qualquer jeito estará certo".
Estou convicto de que a história de Elza Soares, essa fantástica cantora da nossa terra, pode ser inspiradora para você.
Ela nos lembra o quanto podemos fazer diferença no mundo quando, diante das dificuldades, respiramos fundo, acessamos recursos latentes e seguimos firmemente na direção dos nossos sonhos.
Vou dizer algo para você e espero que lembre sempre disso. Duas palavras bem simples mas que expõem a minha crença de que você tem grande força interior, bem como o meu desejo de que mostre ao mundo seu potencial.
As palavras são: Você pode!



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"O TEMPO PASSOU E ME FORMEI EM SOLIDÃO"
 (Autor: José Antonio Oliveira Rezende - Universidade Federal de São João Del Rei)

 Sou do tempo em que ainda se fazia visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente à noite.
Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres os visitantes. Aos poucos os moradores iam se apresentando, um por um.
– Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.
E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!
A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, nos entreolhando e bisbilhotando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro... casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:
– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.
Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... tudo sobre a mesa.
Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança... Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam.... era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...
Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa... A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos... até que sumissem na escuridão da noite.
O tempo passou e me formei em solidão.
Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, internet, e-mail, Whatszapp ... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
– Vamos marcar uma saída!... – ninguém quer entrar mais.
Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e enterram possibilidades. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.
Casas trancadas..Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite...
Que saudade do compadre e da comadre!...
 
Créditos: José Antônio Oliveira de Resende
Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del Rei.

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O QUE É VIDA ?

(Autor: Paulo Villalva - 19/08/2017)

É comum ouvirmos dizer que só existe vida no agora, e por isso chamamos o hoje  PRESENTE. Dizem que o PASSADO não mais existe  e que o FUTURO está por vir.
Muitos gurus vendem estas ideias e muitos experts em psicologia motivacional ganham rios de dinheiro com este tema. No entanto, o meu pensamento é discordante. Vejamos:
Nascemos e dependemos de nossos pais, irmãos, avós, babás, médicos e afins. Aprendemos a dar nossos primeiros passos e a falar a língua que nos ensinam. Aos poucos adquirimos novos conhecimentos e passamos a ter  consciência do mundo que nos rodeia, depois evoluímos e criamos nosso mundo interior.  Fazemos amigos e inimigos, nos apaixonamos e geramos filhos, nos satisfazemos nas pequenas coisas ou buscamos grandes feitos. Enquanto evoluímos no tempo, nosso corpo sofre mutações, nossos pensamentos vão de lembranças do passado a sonhos no futuro. Estamos sempre em transição e constante evolução.
Tudo que fazemos é baseado em fatos vividos. Seja uma grande descoberta em qualquer das áreas do conhecimento humano, seja de alguma lição aprendida no lar ou da “Moral da História” de uma cartilha escolar.
E então, o que era inimaginável antigamente, agora com o advento da internet e das redes sociais se faz  real. Falar do passado em tempo real.
Em todas as mídias podemos verificar que sempre nos referimos a fatos  que marcaram nossas vidas,  Encontramos amigos aos quais fomos muito ligados na infância e juventude, colegas de ginásio e de faculdade, namorados ou namoradas que representaram momentos íntimos, tristes ou alegres. Também amigos que víamos uma vez ou outra ou pessoas com as quais  nunca conversamos, mas frequentamos a mesma escola, a mesma igreja e os mesmos bailes. E agora, trocamos boas lembranças daquele tempo comum que dizemos bom.
Quantas pessoas não trazem à lembrança os feitos de seus pais e demais entes queridos que um dia partilharam da nossa vida? Quem um dia não passará por isso  ou será o sentir de alguém, um filho, um neto, um amigo?
Então, meus caros, a VIDA não é o agora. Este presente que tantos apregoam é sonho efêmero que se acaba num piscar de olhos. Se você é rico ou pobre não foi de agora; se tem uma  família, se é feliz ou vive num inferno pessoal, não é de agora.
Portanto, os  fragmentos do passado é que vão formar a sua história, tanto faz se são os mais recentes ou os mais distantes. E esta história, que chamamos vida, é única para cada ser, não existem duas iguais, mesmo que tentem copiá-la.
 Sabiamente, o CRIADOR não nos deu um tempo pré estabelecido para permanecermos neste planeta chamado Terra, nem nos deixou escolhas para a partida, simplesmente nos deu o pensamento para entendermos que a VIDA é incerta e o passado é o  livro da nossa vida, o único que irá permanecer na eternidade.


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SOBRE OS FELIZES
(Autora: Socorro Acioli - 15/09/2015)

Existem pessoas admiráveis andando em passos firmes sobre a face da Terra. Grandes homens, grandes mulheres, sujeitos exemplares que superam toda desesperança. Tenho a sorte de conhecer vários deles, de ter muitos como amigos e costumo observar suas ações com dedicada atenção. Tento compreender como conseguem levar a vida de maneira tão superior à maioria, busco onde está o mistério, tento ler seus gestos e aprendo muito com eles.

De tanto observar, consegui descobrir alguns pontos em comum entre todos e o que mais me impressiona é que são felizes. A felicidade, essa meta por vezes impossível, é parte deles, está intrínseco. Vivem um dia após o outro desfrutando de uma alegria genuína, leve, discreta, plantada na alma como uma árvore de raízes que força nenhuma consegue arrancar.
Dos felizes que conheço, nenhum leva uma vida perfeita. Não são famosos. Nenhum é milionário, alguns vivem com muito pouco, inclusive. Nenhum tem saúde impecável, ou uma família sem problemas. Todos enfrentam e enfrentaram dissabores de várias ordens. Mas continuam discretamente felizes.
O primeiro hábito que eles tem em comum é a generosidade. Mais que isso: eles tem prazer em ajudar, dividir, doar. Ajudam com um sorriso imenso no rosto, com desejo verdadeiro e sentem-se bem o suficiente para nunca relembrar ou cobrar o que foi feito e jamais pedir algo em troca.
Os felizes costumam oferecer ajuda antes que se peça. Ficam inquietos com a dor do outro, querem colaborar de alguma maneira. São sensíveis e identificam as necessidades alheias mesmo antes de receber qualquer pedido. Os felizes, sobretudo, doam o próprio tempo, suas horas de vida, às vezes dividem o que tem, mesmo quando é muito pouco.
Eu também observo os infelizes e já fiz a contraprova: eles costumam ser egoístas. Negam qualquer pequeno favor. Reagem com irritação ao mínimo pedido. Quando fazem, não perdem a oportunidade de relembrar, quase cobram medalhas e passam o recibo. Não gostam de ter a rotina perturbada por solicitações dos outros. Se fazem uma bondade qualquer, calculam o benefício próprio e seguem assim, infelizes. Cada vez mais.
O segundo hábito notável dos felizes é a capacidade de explodir de alegria com o êxito dos outros. Os felizes vibram tanto com o sorriso alheio que parece um contágio. Eles costumam dizer: estou tão contente como se fosse comigo. Talvez seja um segredo de felicidade, até porque os infelizes fazem o contrário. Tratam rapidamente de encontrar um defeito no júbilo do outro, ou de ignorar a boa nova que acabaram de ouvir. E seguem infelizes.
O terceiro hábito dos felizes é saber aceitar. Principalmente aceitar o outro, com todas as suas imperfeições. Sabem ouvir sem julgar. Sabem opinar sem diminuir e sabem a hora de calar. Sobretudo, sabem rir do jeito de ser de seus amigos. Sorrir é uma forma sublime de dizer: amo você e todas as suas pequenas loucuras.
Escrevo essa crônica, grato e emocionado, relembrando o rosto dos homens e mulheres sublimes que passaram e que estão na minha vida, entoando seus nomes com a devoção de quem reza. Ainda não sou um dos felizes, mas sigo tentando. Sigo buscando aprender com eles a acender a luz genuína e perene de alegria na alma. Sigamos os felizes, pois eles sabem o caminho...

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ONDE ANDARÁ O MEU DOUTOR?

(Autor ou paciente desconhecido)

"Hoje Acordei sentindo uma dorzinha. Aquela dor sem explicação e uma palpitação.
Resolvi procurar um Doutor e fui divagando pelo caminho. Lembrei daquele médico que me atendia vestido de branco. E que pra mim tinha um pouco de pai, de amigo e de anjo. O meu doutor que curava a minha dor, não apenas a do meu corpo mas a da minha alma, que me transmitia paz e calma.
Chegando à recepção do consultório fui atendida com uma pergunta:
- Qual o seu plano?
- O meu plano?
-Ah, o meu plano é viver mais e feliz! É dar sorrisos, aquecer os que sentem frio e preencher esse vazio que sinto agora!
Mas a resposta teria que ser outra:
O “Meu plano de saúde”...
Apresentei o documento do dito cujo, já meio suado, tanto quanto o meu bolso e aguardei. Entrei e o olhei, me surpreendi... Rosto trancado, triste e cansado. Será que ele estava adoentado? Quem sabe, talvez gripado. Não tinha uma expressão alegre, provavelmente devido à febre. Dei um sorriso meio de lado e um bom dia. Olhei o ambiente bem decorado. Sobre a mesa à sua frente, um computador. E no seu semblante, uma dor.
O que fizeram com o Doutor?
Quando ouvi sua voz, de repente:
- O que a senhora sente?
Como eu gostaria de saber o que ELE estava sentindo, pois parecia mais doente que eu, a paciente...
- Eu? Ah! Sinto uma dorzinha na barriga e uma palpitação.
Esperei a sua reação.
Pensei: Vai me examinar, escutar a minha voz, auscultar meu coração...
Para minha surpresa, apenas me entregou uma requisição e disse:
- Peça autorização desses exames para conseguir a realização.
Quando li, quase morri.
“TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA”,
“RESSONÂNCIA MAGNÉTICA”
e “CINTILOGRAFIA”
Ai meu Deus, que agonia!
Eu só conhecia uma tal de “abreugrafia”!
Só sabia o que é estar a “ressonar” (dormir)
De “magnético”, eu conhecia um olhar...
E “cintilar”, só o das estrelas!
Estaria eu à beira da morte? De ir para o céu?
Iria morrer assim ao léu?
Naquele instante, timidamente, pensei em falar: terá o senhor amostra grátis de calor humano para aquecer esse meu frio? Que fazer com essa sensação de vazio?
Observe, doutor, o “tal pai da Medicina”, o grego Hipócrates acreditava que:“A ARTE DA MEDICINA ESTAVA EM OBSERVAR”
Olhe pra mim... É bem verdade que o juramento dele está ultrapassado! Médico não é sacerdote, tem família e todos os problemas inerentes ao humano. Mas, por favor, me olhe, ouça a minha história! Preciso que o senhor me escute, ausculte e examine. Estou sentindo falta de dizer até “aquele 33”! Não me abandone assim de uma vez! Procure os sinais da minha doença e cultive a minha esperança! Alimente a minha mente e o meu coração, me dê, ao menos, uma explicação! O senhor não se informou se eu ando descalço... ando sim! Gosto de pisar na areia e seguir em frente, deixando as minhas pegadas pela estrada da vida. Estarei errada? Ou estarei com o verme do amarelão? Existirá uma gotinha de solução? Será que existe vacina contra o tédio? Ou não terá remédio? Que falta o senhor me faz, meu antigo doutor! Cadê o Scoot, aquele da emulsão? Que tinha um gosto horrível, mas me deixava forte que nem “um Sansão”! E o elixir? Paregórico e categórico? E o chazinho de cidreira que me deixava a sorrir sem fronteiras? Será que pensei asneiras? Ah, meu querido e adoentado Doutor, sinto saudades dos seus ouvidos para me escutar, das suas mãos para me examinar, do seu olhar compreensivo e amigo... Do seu pensar...
O seu sorriso que aliviava a minha dor, que dava forças para lutar contra a doença e que estimulava a minha saúde e a minha crença... Sairei daqui para um ataúde? Preciso viver e ter saúde! Por favor, me ajude!
Oh, meu Deus! Cuide do meu médico e de mim, caso contrário, chegaremos ao fim...Porque da consulta só restou uma requisição digitada em um computador, e o olhar vago e cansado do Doutor! Precisamos urgente dos nossos médicos amigos, a medicina agoniza, ouço até os seus gemidos. Por favor, tragam de volta o meu Doutor! Estamos todos doentes e sentindo dor... Peço para o ser humano uma receita de “calor” e, para o exercício da medicina, uma prescrição de “amor”!"


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SEU NOME?  FELICIDADE!

"Eu já não sei onde mora a dona felicidade.
De repente, foi-se embora,
Só me deixando a saudade!"

Amiga , amada, amante ou companheira, desde que se conhece como tal, o homem a tem procurado, encontrado e perdido, nos meandros de sua existência, nos desvãos do tempo e do espaço, nas encruzilhadas do destino, nas miragens do sonho, nos abismos do pecado, nos bastiões do poder, nos páramos da renuncia, nos castelos do egoísmo, nas feiras do prazer, nas montanhas da beatitude.
Seu nome? Felicidade!

Fugaz, caprichosa e volúvel, parece não se comprazer com o normal e o corriqueiro de nossas vidas, aborrece-se com a rotina, despreza o convencional, foge às situações perfeitamente definidas.
A sua instabilidade nos deixa perplexos. A sua eterna insatisfação instala-nos o medo e o pânico de a contrariar. E sabemos que a sua conquista tem a vida efêmera de um segundo.
Afinal de contas,onde está a felicidade? Quem é ela? Existirá realmente ou é simples mito ou fantasia?
A nossa felicidade começa quando descobri-la e alcança-la se torna para nós verdadeira obsessão. Quando imaginamos que ela é algo que existe fora de nós ou algum lugar para onde nos atiramos cega e loucamente. Quando  nos esquecemos de que, como tudo o que nos cerca, também ela mora dentro das quatro paredes da relatividade.
O mesmo "gasparino" , fração do bilhete de loteria, quando sorteado, faz a felicidade de um pobre mortal e a tremenda e brutal frustração do outro, que passará a vida inteira se lastimando por não haver comprado o bilhete inteiro.
O mesmo pedaço de bolo deixado no prato por fastio do conviva empanturrado, fará as delicias do mendigo do qual a fome é eterna companheira.
O temporal que faz a desgraça dos fazendeiros, ameaçados de perder as suas colheitas, é causa de jubilo e trará felicidade ao fabricante de guarda-chuvas.
Para uns o que importa é oi vinho que ocupa o vaso pela metade. Para outros, todavia, o que os preocupa é justamente a metade que permanece vazia.
Assim, pois, de nada adianta o nos afligir na busca de algo que deve ser procurado dentro de nós mesmos.
Quando nos dermos conta de que o essencial é a descoberta daquilo que realmente somos, de todas as  nossas potencialidades e do sentido de nossas vidas, então é que teremos encontrado o verdadeiro atalho que nos conduz à felicidade, que é menos um objetivo a ser alcançado do que propriamente a maneira como caminhamos para o alcançar.
O que nos torna felizes é estarmos com a consciência tranquila, em sintonia com as maravilhas que a natureza nos proporciona, em comunhão com todos os nossos semelhantes.
O louco desvario pela posse dos bens materiais é que nos rouba a serenidade e perturba a existência, porque nessa linha de conduta, pausada pela febre insaciável do ter, a gente simplesmente se esquece de ser.
E o homem, pobre infeliz, quer sempre aquilo que não tem, numa corrida desenfreada pelas sendas da sua desmedida cobiça.
Alcançada a meta pela qual chega até a mercadejar a sua própria alma, já com os olhos ávidos de posse no próximo objeto do seu querer. E assim, indefinidamente, numa batalha sem quartéis, numa guerra sem esperanças de qualquer forma de vitória.
Feliz era o homem que não tinha camisa, despojado de tudo, que nada tinha a perder, nem porque se preocupar. Sequer com a indecisão pela escolha acertada da gravata que melhor combinasse com a sua maneira de trajar.
Pois, sem sombra de duvidas, a felicidade reside nas pequenas coisas: na beleza ímpar de um simples buquê de rosas, no riso puro e cristalino das crianças, no bate-papo descontraído com amigos ao cair da tarde, no passeio sem destino pelos campos e ao sabor dos ventos, na sensação aconchegante de uma reunião familiar que enseja uma farândula de emoções, na satisfação do dever cumprido, na conquista de uma vitória no dia-a-dia  do exercício profissional, no sorriso em flor de uma mulher bonita, na colheita da gratidão por parte de alguém a quem prestamos ajuda, e até mesmo na aceitação serena dos próprios revezes da sorte, já que não se pode até mesmo prescindir da dor para se alcançar um grau de maturidade sem o qual se torna impossível viver.
Como já disse o poeta Hermógenes, cultor da filosofia yoga "felicidade não é sinônimo de prazer, nem antônimo de dor, pois os sábios em pleno sofrimento, ainda conseguem ser felizes, ao passo que os estúpidos, mesmo embebidos de prazer, sentem-se muitas vezes desgraçados".
E continua: "assim como o calor do sol é necessário para amadurecer os frutos da mangueira, certos padecimentos e desapontamentos constituem a forma eficaz de amadurecimento para certas almas rebeldes. Se os frutos são amargos, não culpes ninguém. Antes, indagues de ti mesmo sobre que sementes andaste plantando".
É portanto no equilíbrio interior que devemos procurar a nossa própria segurança, de tal sorte que a perda de ente querido, uma grande desilusão amorosa ou eventual percalço financeiro, em nada poderá nos abalar no que diz respeito à serenidade conquistada, porque sabemos que continuamos a contar com nosso próprio EU e com a infinita bondade e amor do Pai.
Novamente invocamos a inconteste autoridade de Hermógenes, quando ensina:
"Não pules ansioso e ávido querendo agarrar as estrelas. Senta-te quieto e mudo e esquece-as inteiramente. Quando o teu silêncio fizer de ti uma estrela, verás que uma das que estão no céu descerá para brincar e conversar contigo".
Esta estrela se chama Paz!
Quando a encontramos, ela nos apresentará a sua irmã gêmea.
Seu nome? Felicidade!


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UMA VIDA SEM RISCOS

(Autora: Ruth Manus - colunista do O ESTADO DE SÃO PAULO) 

Teresa cresceu num ambiente saudável, com pais amorosos em uma casa simples onde a rotina era impecável. Teresa cresceu sem saber o que era risco. Nada, absolutamente nada era arriscado naquela família. Quando ela acelerava os passos enquanto criança, os pais diziam "filha, não corra, senão você pode cair e se machucar". Teresa não corria porque aprendeu que evitar riscos era mais importante do que corrê-los. E assim ela viveu: estudando para tirar as melhores notas, ter apenas amizades seguras e namorados que representassem uma certeza antecipada.
Cresceu e se tornou uma professora exemplar, impecável, letra redondinha, pontualidade britânica, diários sem nenhuma falha, cabelos sempre presos, sorriso sereno e dentes brancos.
Casou-se com Paulo, funcionário de um banco, homem tranquilo e simpático tal como Teresa. Paulo tinha hábitos parecidos aos do sogro, não admitia sapatos espalhados pela casa, pagava os boletos antes dos prazos, nunca gastava mais de 70% do salário e colocava o restante numa aplicação bancária sem riscos.
E assim, seguia a vida. Tiveram três filhos, que criaram de acordo com a educação e os princípios que aprenderam. As crianças só usavam sapatos com velcro para evitar que tropeçassem nos cadarços e nunca saiam à rua sozinhos.
Um certo dia, Teresa foi ao mercado e comprou o de sempre: maçãs, peras, leite, ovos, manteiga e torradas. No caixa, colocou na esteira, como sempre, tudo numa sequencia lógica: leite e manteiga primeiro, depois maçãs e peras, na sequencia as torradas e os ovos para que não se quebrassem.
Ocorreu que neste dia, faltaram sacolas plásticas no mercado e a única opção eram sacos de papel, como antigamente.
Teresa teve um pequeno ataque de pânico. Não era possível transportar tudo em sacos de papel que com certeza iriam rasgar. Seu coração disparava e não havia o que fazer.
Teresa abraçou os sacos com as compras e começou a caminhar, nervosa, imaginando as compras caindo na calçada, os ovos quebrando e as maçãs rolando pela rua. Acelerou o passo para chegar em casa mais rápido. Quando abriu a porta, mal acreditou que as sacolas não se rasgaram e as compras estavam intactas. Seu rosto ficou corado e seu corpo foi tomado por intensa dose de adrenalina, sensação que jamais havia sentido.
Teresa sentiu-se confusa. Estava possuída por uma sensação boa que não podia compreender.
A partir deste dia, passou a usar somente embalagens de papel, que ela mesmo levava, somente para correr o risco. Ela relutava em admitir, mas gostava disso.
E essa sensação nova foi a porta de entrada para drogas mais fortes: começou a colocar tortas e bolos no forno e entrar no banho, a deixar os uniformes dos meninos para lavar nos domingos, a pendurar as roupas no varal para secarem mesmo com previsão de chuva.
Ninguém da família entendia o que se passava com Teresa. Estava uma pessoa diferente, se apresentava uma mãe e uma esposa mais alegre. Os preparos das refeições passaram a ter temperos mais fortes e variados e os filhos eram incentivados a se equilibrarem em muretas, quando o pai não estava presente.
Teresa era mais feliz correndo riscos. Seguiu fiel ao marido e não se aventurou a experimentar bebidas alcoólicas mas ontem, foi à feira sem calcinha.
Nunca se sentiu tão livre e bem humorada.

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UM FELIZ ANIVERSÁRIO

  (Texto de Fernando Sabino)

Ao fundo do botequim um casal humilde acaba de sentar-se ocupando uma das ultimas mesas. No colo da mãe, uma criança de aproximadamente três anos, laço de fita na cabeça, toda arrumadinha num vestido branco.
O pai, depois de contar as notas de dinheiro que discretamente retirou de um dos bolsos da calça, aborda o garçom e aponta para o balcão onde sobre ele paira um bolo sob a redoma. A mãe limita-se a olhar, ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom., que anota o pedido e depois se afasta.
A mulher suspira, olhando para os lados e para o bolo, disfarçando a sua anciosidade. O funcionário, do outro lado do balcão, retira com as mãos uma fatia triangular daquele bolo amarelo recoberto com glacê escuro e a coloca num pequeno prato de plástico.
A criança, na sua expectativa, acompanha os passos do garçom que se aproxima, trazendo na bandeja o pratinho com o bolo e uma garrafa de refrigerante com canudinho.
Nesse mesmo instante, a mãe remexe a bolsa de plástico preta e brilhante e retira três velinhas cor de rosa.
Após espetar as velinhas na fatia de bolo, o pai risca o palito de fósforo e as ascende. Como num gesto ensaiado, a garotinha apoia o queixo na mesa e assopra com força para apagar as chamas que brilham na penumbra do bar, batendo palminhas e mexendo os lábios numa canção ensaiada.
Os pais juntam-se a ela no coro "Parabéns a você...parabéns a você!"
Depois a mãe retira as velas e deixa que a filha saboreie a fatia de bolo. Continua a observar a menina com ternura e lhe ajeita a fitinha no cabelo crespo.
O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito e convencido intimamente do sucesso da celebração.
Depois, pais e filha deixam o local com sorrisos nos lábios e felicidade estampada nos rostos, para um passeio no jardim publico.



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 A TERCEIRA IDADE 

  (Texto de Benvindo Siqueira)

Sempre pensei que ia morrer cedo. A luta armada, a clandestinidade, aventuras, promiscuidade, orgias, riscos ... tudo me levava a crer que não chegaria aos30 anos. Para quem tem 20 anos, quem tem 30 anos já é corôa.
Tomei um susto quando vi-me vivo e saudável aos 30. Aos 40 percebi a possibilidade real da morte. No dia do meu aniversário  quarentão, um jovem ator de 24 anos perguntou como eu me sentia:
Agora? De frente para a morte? Para minha surpresa foi o jovem quem morreu logo depois.
Aos 50 apaixonei-me pela letra de Aldir Blanc na voz de Paulinho da Viola: "Aos 50, insisto na juventude" ... isso quando percebia meu `ângulo peniano caminhando para os 90 graus. Mas, antes dos 60, a pílula azul alargou minhas possibilidades e possibilitou-me a ver o sexo por ângulos mais estreitos.
Agora estou além dos 60. Aos 40 rezava pela alma dos  amigos e parentes mortos. Nome por nome, eu pedia ao Senhor. Hoje, são tantos os que cairam, que apenas peço pelos mortos em geral. 
E mais uma vez espanto-me por estar ainda vivo.e consolo-me no Salmo 91.7, que diz: Mil cairão ao teu lado e dez mil à sua direita, mas você não será atingido. Mesmo confiando na Palavra, ainda assim caminho embaixo das marquises pra São Pedro não me ver.
Ainda estou vivo, e para quem pensou que morreria aos 30, descubro que existe vida após a vida. Mas o preço do viver é muito alto para o jovem de hoje: tem que comprar apartamento, arranjar um trampo, ganhar dinheiro, ficar famoso, comer todas, bombar no Youtube, malhar, casar, ter filhos, comprar carro, estar bronzeado, conhecer tudo de Web e ainda ir ao show da Madona, entre outras miudezas.
Após os 60 você já esta quite com tudo isso e pensa que vai viver em paz.
Qual o quê: tem que tomar insulina, antidepressivo, Rivotris, controlar a pressão, não ingerir açucar, não comer sal, não fumar, não beber, se conseguir comer uma já será considerado uma vitória, tem que caminhar ao menos meia hora por dia, cuidar do joanete, dormir cedo, vender o apartamento, fugir da bolsa, não discutir no trânsito, não se alterar no caixa do supermercado, tolerar a malcriação dos filhos, agradar os netos, ficar calado diante da mediocridade, aceitar o salário de aposentado, ter o testamento em dia e curtir todas as dores ósseas, nervosas e musculares porque, se algum dia você acordar sem dor é poque estará morto.
Claro que o idoso tem suas vantagens: uma delas é a transparência.
Quanto mais velho, mais transparente você se torna. Chega ao ponto de ficar invisível: ningém mais lhe percebe e às vezes nem lhe enxergam. Mas pode passar à frente dos jovens nas filas todas, com aquele ar de superior. - Você é jovem e sarado, mas eu tenho prioridade. E ante qualquer aborrecimento ou dificuldade você ameaça infartar ou ter um AVC. Funciona sempre, todos logo se tornam gentís e cordatos. Logo vem o Natal e se lembrarão de você e te darão meias,  lenços e fraldas de presente.

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CRÔNICA DA LOUCURA


(Texto de  Luís Fernando Veríssimo)


O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra.
Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias,meses, anos. Se não era louco, ficou.
Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um  louco, contando as minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco  confesso, que estou adorando estar louco semanal.
O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco.
Ninguém olha para ninguém. O silencio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corinthianos ou palmeirenses.
Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo. E a sala de espera de um consultório médico", como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos:
 Na última quarta-feira, estávamos:
 1. Eu
 2. Um crioulinho muito bem vestido,
3. Um senhor de uns cinquenta anos e
4. Uma velha gorda.
 Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles. Não foi difícil, porque eu já partia do princípio que todos eram loucos, como eu. Senão, não estariam ali, tão cabisbaixos e ensimesmados.
 (2) O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para leva-lo até aquela poltrona de vime. Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam o namoro e não conseguiu entrar como sócio do "Harmonia do Samba"? Notei que o tênis
estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo.
Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso. Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina.
 (3) E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos?
Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas. Insegurança total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa. Claro, abandonado pela esposa.
Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual?
 Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido.
 (4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava.
Estava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse.
 Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista. Conto para ele a minha "viagem" na sala de espera.  Ele ri, ..... ri muito, o meu psicanalista, e diz:
 - O Ditinho é o nosso office-boy. 

- O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades.
 - E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe.
 - E você, não vai ter alta tão cedo..."


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SER AVÔ


(Texto de  Luís Fernando Veríssimo)

Avô é um pai com licença para estragar a criança. Sua liberdade no trato com os netos é total. O que o pai faz por obrigação, avô faz - ou não faz - por escolha.
Pai tem de estar sempre pronyto para mudar as fraldas da criança. Avô pode estabelecer limites às suas atribuições. Fralda com xixi, vá lá, numa emergência. Fralda com cocô, nunca.
Importante: o correto uso do colo. Existem dois tipos de colo, o utilitário e o festivo. Colo utilitário é quando a criança fica na vertical recebendo tapinhas nas costas, depois de mamar. Seu objetivo é provocar o arroto. Arroto e pum são as duas principais  realizações da criança nos seus primeiros meses de vida. São recebidos com manifestações de entusiasmo da família, como seela tivesse passado no vestibular. O avô deve manter distância na hora do colo utilitário. Pode fazer parte da torcida, soltar um "Viva o Brasil" na hora do arroto, se for dos bons, ou de um pum particularmente ressonante. Ficar no apoio moral. Mas só. No colo vertical o avô não consegue desempenhar sua principal função, que é a de ficar olhando o rosto da criança, maravilhado. Depende da informação de terceiros para cumprir sua missão ("Ela tá de olho aberto?, Fechado?, Tá rindo?"). Já o colo festivo, na horizontal, é para a adoração e nada mais. No colo horizontal até um pum extemporâneo da criança pode ser tomado como uma adrência especial ao bobo que a segura.
Outra função importante de um avô é falar racionalmente, com voz normal, com a criuança recém-nascida.. Relatar os fatos do dia, pedir sua opinião, sugerir que ela não se desespere com as opções limitadas da sua alimentação no momento (só duas, peito direito e peito esquerdo), pois com o tempo as coisas melhorarão bastante. Logo virão as papinhas e as sopinhas e eventualmente os carrês de cordeiro com batatas Dauphine e cebolas carameladas, e arrotos com muito mais conteúdo. Claro que o avô não espera que a criança o entenda, e muito menos que responda. É para ela saber que nem todos falam como bebê e fazem perguntas retóricas como "Cadê a coisinha mais fofa, cadê?" e que ela não caiu num mundo de malucos. E que o nível das conversas também melhorará com o tempo.
Passada a primeira fase, o avô deve acompanhar todas as etapas do crescimento da criança na capacidade que lhe for pedida, salvo risco de deslocamento da coluna. Se uma neta começar a estudar balet e exigir que o avô faça pliês junto com ela, ele tem que obedecer. Quando chegar a minha hora não sei se conseguirei ficar de pé, mas estou preparado.


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UMA HISTÓRIA DE NATAL

Autor: Paulo Villalva

Como é costume, todos os finais de ano alguém toca a campainha se identificando e fazendo crer ser merecedor de um brinde de Natal. Temos como certos o carteiro, o entregador de jornal, o catador de recicláveis e a turma do lixo, que geralmente se compõe de um motorista e quatro atletas coletores. Mas como Papai Noel é sempre bonzinho, também lembramos do vendedor de panos (que faz ponto no semáforo da esquina), do varredor da rua (que só vemos na Pascoa e no Natal) e dos costumeiros necessitados para comprar um remédio (sempre têm uma receita), para inteirar a passagem para Minas, que saiu da cadeia e procura um emprego, e por ai vai. Vocês estão rindo? Pois é, quem morou em casa de rua sabe bem do que estou falando.

Mas, voltando à nossa história, aconteceu no Natal do ano passado um caso curioso, daqueles bem inusitados. Minha esposa preparou as sacolas com todo carinho e designou o Papai Noel, que sou eu, para num determinado dia fazer as entregas.

Cinco e meia da manhã, lá estava eu esperando no portão, de sacolinha em punho, o entregador de jornal que só apareceu às seis. O carteiro passa geralmente entre onze e treze horas, portanto meu almoço foi para as cucuias. O resto da tarde fiquei à disposição da campainha, mas desta vez não apareceu ninguém.

Mas, restava o final do dia, comecinho da noite. Logo passaria o caminhão do lixo.

Ouvidos atentos, fiquei na espreita. Assim que apontassem na esquina eu deveria partir num pique daqueles para fazer a entrega das cinco sacolas, porque o motorista não para o caminhão para os atletas coletores.

Pique de 66 sabe como é, cheguei atrasado e os coletores ainda voltaram para ajudar o Bom Velhinho, pegaram as sacolas das minhas mãos e correndo atrás do caminhão atiraram tudo na caçamba.  E eu desesperado gritando: —Seus trouxas, era o presente de vocês!

Fiquei parado na esquina vendo o caminhão sumir avenida abaixo. E voltei cabisbaixo para minha casa.

Seu trouxa, seu trouxa, seu trouxa!


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SERRINHA DE OUTRORA

 

Autor: Paulo Cesar Lorenzini Villalva

 

 Ah! Minha Serrinha de outros tempos, uma cidadezinha simpática, pacata, tranquila, com seus hábitos próprios, decantados com o correr dos anos suas usanças, suas figuras tradicionais...  Era por aquele tempo, idos do primeiro quarto do século 20, quando a velha cidadezinha já ultrapassara seu centenário, era a “nossa” cidade, e nós fazíamos parte dela, tanto quanto ela o fazia de nós. Identificamo-nos, ambos, numa simbiose estranha, num conúbio indissolúvel! A nós nos parecia que o tempo estava solidificado e que tudo era estático; e a sua população que não se alterava nunca, seus prédios sempre os mesmos, como que vindos da aurora do mundo, já tisnado pela pátina do tempo; com os seus imponentes casarões, ainda renascentes do Império e do fastio econômico da cidade; e os seus costumes que não se modificavam nunca. As festas tradicionais, as famosas quermesses; as figuras imponentes dos velhos políticos, entidades majestosas de antigos patriarcas, vindos ainda da época de transição Império-República... Ah! Querida e velha Serrinha, Freguesia de Senhora Sant’Anna de Serrinha! No entanto, agora à distância no tempo, vemos com os olhos da saudade, que aquele velho burgo já lá se foi, para nunca mais retornar até à consumação dos séculos; e que, em seu lugar como que edificaram uma outra cidade, com outra população, com feição urbana diferente, com outros usos... É como se os anos, em seu transcorrer veloz, houvesse soterrado aquela velha urbe, e, sobre as novas camadas, outra cidade houvesse brotado! Nada as identifica, nada mesmo, a não ser o velho nome comum de Nossa Senhora Sant’Anna de Serrinha. Aquela nossa velha e querida Serrinha, porém, ainda insiste em exibir, em reclamar e afirmar a sua presença na nossa memória, e, também, nas dos seus velhos moradores, nossos contemporâneos. É uma luta inglória e desigual, bem o sabemos, sem qualquer perspectiva; a nossa velha cidade, com suas glórias, tradições, usanças e figuras, terá desaparecido de vez, e para sempre, quando, nós, também, com a nossa memória, tivermos nos encaminhado para o Grande Olvido... Aí então, velha e querida Serrinha de outrora, será como se nunca houvesse existido, e terás deixado menos marcada a sua presença do que a suave brisa que agora, lá fora, corre brincando entre a folhagem do catingal.  Exumemos as nossas lembranças, daquela cidadezinha pacata, nos períodos decorridos entre a primeira e a terceira década do século passado, quando Ruy Barbosa, o Águia de Haia, ali esteve em campanha para a eleição do juiz federal Paulo Martins Fontes ao governo do estado, em oposição ao jurista Jose Joaquim Seabra, e a cognominou de Princesinha do Sertão. Era trepidante dos primeiros automóveis, do nascimento do rádio e do avião, e do aparecimento daquelas danças escandalosas, que as mães aflitas condenavam, o “rag-time”, o “fox-trot”, o “charleston”...  que ecoavam do salão da Leste. A cidade de Serrinha era, naquele início de século, a sede de um município essencialmente agrícola, como a maioria do interior do país. Sua economia girava em torno da cultura do Sisal e do Bicho da Seda, e toda a zona rural era um imenso verde de Amoreiras, a espraiar-se pelos morros e várzeas. Em época anterior, o município fora forte na criação de gado, restando para a lavoura apenas as culturas de subsistência. As propriedades rurais constituíam imensos latifúndios, que abrigavam a grande família de trabalhadores, fortes caboclos, miscigenados, que substituíram a mão de obra escrava de idos tempos e davam bom dinheiro aos fazendeiros, dinheiro, esse que, por transferência, vinha a cair nas mãos dos intermediários e depois nas dos comerciantes urbanos. Aos domingos, aquela massa de população rural, os roceiros com suas famílias, se abalavam para a cidade, para as compras, vindos por todos os meios de condução, de carroça, a cavalo, a pé...  Era o Dia do Senhor, o grande dia do comércio, das grandes vendas da liquidação dos estoques; ao comércio era permitido abrir as portas até às 15 horas, e já desde as primeiras horas da manhã as ruas principais regurgitavam de gente, num intenso movimento, numa agitação hoje inimaginável.   O pessoal das fazendas derramava-se, desde cedo, pelas ruas, enchendo-as e as suas lojas, vendas, empórios, açougues, padarias, falando alto, regateando, praguejando, discutindo preços, comprando coisas, fazendo barganhas de animais, arreios, selas, facas, garruchas e pelegos, numa agitação quase febril. Por volta das 12 horas, porém, fazia-se um hiato nessa enorme azáfama; grande parte dos compradores buscava um lugar para o almoço, quer arranchado sob um Oiti da Praça Luís Nogueira, na escadaria da igreja ou num cantinho da estação ferroviária. O grosso, no entanto, calçava o estômago, iludia a fome crônica, nas vendas e padarias, a golpes de pão com carne seca umedecido com manteiga de garrafa, farinha com feijão de corda e pimenta, regado a refrigerante laranjinha Fratelli Vitta e aguardente, que era barato e de má qualidade, produzido pelos alambiques de Lameirão.  Após o almoço, descansavam como jiboias, preparando-se para a dura  viajem de volta, enquanto um ou outro, com alma de artista, sacava de sua  sebenta sanfoninha ou viola, acordes tristes e alegres, incentivando os repentistas que grassavam desafios infindos... Às três da tarde o comércio cerrava as suas portas, e o sinal para tanto era dado pelo apito do trem da Leste que vindo de Alagoinhas seguia para os confins do sertão. Toda aquela enorme multidão tomava, então rumo de casa, pela mesma maneira porque viera, e um estranho e enorme silêncio descia das alturas, e se estendia de súbito sobre a cidade exausta, cansada da faina matinal. Era então, que a população urbana, em sua imensa maioria, ia cuidar de si para preparar o almoço ajantarado, cuidar dos seus afazeres domésticos, dar balanço nos negócios feitos, pôr em ordem as prateleiras desguarnecidas, contar o lucro do dia... Como não houvesse qualquer indústria na cidade, a população toda estava de certa maneira ligada ao comércio urbano, vinculada às lojas, vendas, armazéns, padarias.   Por essa razão, o ajantarado saia lá pelas cinco horas, ansiado tanto quanto a correspondência e os jornais trazidos da capital pelo comboio da Leste. O jornal era o grande e único veículo de comunicações da época, e somente através dele é que a pequenina cidade, ilhada pelas fazendas, tomava conhecimento do mundo exterior que se agitava lá fora, nas grandes metrópoles. Não existia o rádio, e a televisão era algo que sequer fora cunhada pelo mais avançado sonhador. E para ligar Serrinha à civilização, de prático somente havia a estrada de ferro, com os seus dois únicos horários diários com destino a Salvador: o matutino e o noturno. No sentido inverso, somente o vespertino. As estradas de rodagem ainda estavam para serem abertas, a não ser um rudimentar caminho com destino a Feira de Santana, passando pelo vilarejo de Santa Bárbara, quase intransitável e perigoso, por isso evitado. Depois do ajantarado e da leitura dos jornais, caía o restinho da tarde, horas mansas e serenas, enormes e silenciosas tardes, em que o Sol, pelos lados do morro de Sant’Anna caprichava em exceder-se em beleza e grandiosidade, numa orgia de cores, numa aleluia de luzes. Vinha o crepúsculo, um crepúsculo majestoso em que o Sol sanguíneo se afogava num mar de nuvens de ouro e rosa, que, depois, enlouqueciam e cambiavam para outras, outras, outras cores... Pairava no ar, por toda parte, um silencio pesado, palpável, audível... para receber  a noite que vinha suave e pontilhada de astros.  Os lampiões de acetileno dos jardins da praça, eram então acesos, iluminando os passeios e o chafariz, num cenário perfeito para o “footing” ao redor das muretas, com rapazes e moças se cruzando naquelas intermináveis idas e vindas, manobras propicias para os olhares cruzados em tira linha, ou flertes, como então se dizia. Alguns pares com namoros já consolidados, sentavam-se nos bancos de pedra sob os Oitis inertes, dizendo-se as mesmas eternas palavras e coisas que todos os jovens em toda as épocas, dizem, naquela idade de sonho...        Mais ao longe, no Largo da Igreja, a velha corporação musical “Filarmônica 30 de Junho” executava uma retreta sob a batuta do maestro Vianinha, que os músicos e os ouvintes bem conheciam, uma vez que eram sempre os mesmos e velhos dobrados marciais, tão repetidos que até os cães o sabiam de cor... Do outro lado da rua, na esquina da Pharmácia Probidade, seu Leobino observava, o movimento, com um olho no padre e o outro na praça. 

 

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NOSSA SIBIPIRUNA

Texto de Paulo Villalva

 

Foi num domingo. Na casa de Deus estava eu constrito a receber a hóstia divina, quando ela voltava, de alma leve e obrigação cumprida. E nossos olhares se cruzaram, e o perfume de jasmim que exalava do seu rosto emoldurado pelo véu que cobria seus longos cabelos cor de mel, chegou a mim e tocou-me para sempre.

E o flerte virou namoro, amor e romance. E quantas juras trocamos junto àquelas flores do jardim, e as serenatas sob o luar da madrugada esperando seu sorriso na janela entreaberta. E quantos sonhos sonhamos olhando as estrelas no firmamento; e quantas juras, quantos projetos para depois da nossa juventude, dias que ainda pareciam muito distantes daquele tempo.

E a distância nos separou, mas a ausência tem duas virtudes, reduz as pequenas e aumenta as grandes possessões, assim como o vento que extingue a chama da vela e aumenta aquela que faz arder uma floresta.

E nossas cartas trocavam juras de amor, segredos nossos, só nossos, e sonhos, muitos sonhos.

E um dia nos unimos naquela mesma casa de Deus, no mesmo teatro onde encenamos o primeiro ato da nossa vida; e nos fizemos atores de uma peça sem enredo, ainda a ser escrita.

Caminhando juntos, criamos forças para vencer a realidade da vida, refizemos nossos planos antigos, alteramos nossas metas, choramos e rimos muito, muito mesmo.

E novas alegrias brotaram das profundezas do nosso amor.... os nossos filhos! Ah, quanta alegria, quão novas esperanças!

Mas, qual ser humano não sentiu a força do infortúnio, nuvens negras anunciando tempestade? Quem passou incólume por esta vida?

E da nossa janela, ficávamos à espera de dias melhores, olhando para a pequena Sibipiruna: vagens rodopiando levadas pelo vento no inverno, flores amarelas atapetando nossa calçada na primavera, gotículas de mel e brotos novos anunciando o verão e sombra, muita sombra dos seus galhos fartos de folhas verdes, e pássaros, e ninhos, e filhotes, e sonoridade, muita sonoridade anunciando vida.

Um dia, sentamos ao pé da Sibipiruna, e segurando nossa caixinha de cartas com mãos trêmulas, fomos queimando cada envelope, cada folha, cada linha, cada letra da nossa história. Era um novo ciclo que brotava daquela relutante ideia, mas era preciso imitar o ciclo da árvore, que parecia morrer e reflorescia a cada ano.

E os anos não passaram simplesmente para a nossa Sibipiruna; aquela árvore pequena hoje é majestosa. Seu tronco por certo, já muito vivido, apresenta rugas, alguns Cupins a atacaram e deixaram nela marcas profundas, mas nem por isso deixou de brilhar todos os dias e abrigar quem dela necessita.

E assim tocamos nossas vidas. Os anos se passaram e crescemos ao mesmo ritmo, e mudamos nas estações da vida, e construímos nossos ninhos e criamos nossos filhotes, que também fizeram seus ninhos em outras Sibipirunas e tiveram seus próprios filhotes, que hoje chamamos de netos.

E hoje, nossos ouvidos estão mais aguçados. Além dos pássaros da nossa árvore conseguimos até ouvir o zumbido de uma grande floresta, sons místicos da noite, sinal de que árvores existem, e muitas, para quem procura a felicidade nas coisas mais simples. Aqueles sonhos antigos, já não fazem falta!   

 

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 MINHA MÃE

Texto de Paulo Villalva

 

Quanto dói uma saudade

quando é saudade de alguém

que soube deixar saudade

na saudade que se tem!

 

Tem dias que que nos trazem recordações maravilhosas, mas há também aqueles de saudade, de dor no peito, de tristeza. 

 Foi na manhã do dia 24 de novembro, no já longínquo 2006, que fui barrado à porta da UTI do Hospital Samaritano.  Sim, várias pessoas puderam passar por aquela porta e só eu fui barrado. Minha mãe estava morrendo...

Em respeito a todos os filhos que adoram suas mães, não direi que a minha foi a melhor mãe do mundo. Mas foi esta que me trouxe à vida e a quem me amarrei de todas as maneiras com extremado amor. Como em toda relação de mãe e filho às vezes ocorrem dissabores provocados pela raiva, pela ira, mas também existe ternura e paixão. Quem nesta vida não carrega um remorso por um pequeno ato de desacato à mãe? Sim, os filhos amam suas mães, mas também as machucam, e elas perdoam sempre. Quisera eu poder voltar o rolo do filme da minha vida e desfazer as cenas das quais hoje me arrependo, e reescrever a nossa história de outra forma e poder sorrir, e gritar...sou feliz!

Ela nasceu de bom berço, como diriam os antigos, pai médico, mãe primorosa, sangue italiano, como o vinho mais saboroso, produzido com uvas colhidas no Piemonte misturadas às da Calábria, aprimorado em barricas de madeira da Régio Emília. E foi esse o nome que Lorenzo e Vincenza escolheram para ela, depois de perderem o querido Emilio, a criança que a precedeu.

Em terras gaúchas, sua infância feliz foi interrompida aos quatro anos, quando o pai caiu fulminado por um enfarto, aos 42 anos. Dali em diante, vivendo na chácara dos avós Nicola e Concheta, na pequenina Pirangi, sofreu as agruras de uma infância na pobreza.

A mãe, com quatro filhos pequenos, esmerava-se na costura e no crochê, mas naqueles tempos, tudo era muito difícil, no seio de uma família de imigrantes de poucos recursos.

Mudaram-se para Catanduva onde as oportunidades de escola e trabalho eram maiores. Numa pequenina casa de fundos, aluguel pago pelo bondoso tio Victorio, a viúva italiana criou a sua prole, com muito carinho, dedicação e bons costumes. Maria, Antônio, Emília e Yolanda.

Um dia, a mocinha loira de corpinho fino, dentes alvos e sorriso nos lábios, conheceu o seu príncipe encantado, um jovem médico baiano que vinha de Serrinha para conquistar o sertão de São Paulo. E se casaram no ano de 1943. Vieram os filhos com muita alegria e entremeados de tempos bons e ruins, soube ela com bravia coragem cuidar do lar, se aventurar no ensino primário e manipular a velha máquina de costura e as agulhas do tricô para ajudar na sobrevivência da família. Adorava livros, recitava poesias e cozinhava como ninguém, inventando pratos deliciosos dos ingredientes mais simples, tudo com muito amor. O casal era feliz com o que tinha.

E assim seguiram na vida, sempre juntos na Vila São João, que se tornou Nhandeara, onde eles hoje repousam em paz. 

Viúva aos cinquenta anos, ela não se curvou ao infortúnio. Se fez produtora rural, como gostava de ser chamada, foi forte, viajou algumas vezes, embora não tenha conseguido realizar o sonho de conhecer a Itália, a terra dos seus pais e avós.

Sempre que a ocasião permitia ajudava os filhos em apuros, amparava noras e netos, sem esperar recompensas. E teve a desventura da dor de perder um filho na flor da mocidade. Dor maior de uma mãe.

De gênio forte, decidida, olhar altivo, depois das pancadas da vida passou a sofrer calada, olhar triste e sereno, reclamando apenas da solidão da velhice. Era o ciclo da vida que ia se delineando para o fim. E veio o AVC, a confusão mental, o esquecimento, a ruptura do maldito fêmur fragilizado pela osteoporose.

E nos meus braços, mãe, eu te carreguei como a uma criança, leve como pluma, olhar no infinito, sem nenhuma esperança. Te acariciei, te pedi perdão, te amei como nunca, chorei e implorei a Deus, aos Santos, a todos os Espíritos, mas tudo em vão. A porta da UTI se abriu para mim, para devolver seu corpo sem vida, sem cor, sem calor.

E eu cumpri seu último pedido... voltar para sua casa, para o seu antigo lar. E lá velei seu corpo. 

 

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SUJEITO GERÚNDIO

Autor: Marcos Inhauser

Fonte: Correio Popular de Campinas-SP

Com certeza você já se deparou com uma espécie destas que abunda na fauna das coisas incompletas. Aliás, tenho me surpreendido com a quantidade de pessoas que se enquadram neste quesito.

O sujeito gerúndio é aquele que, quando perguntado sobre uma delegação, atribuição dada, expectativa que ele passou acerca dele mesmo, nunca conjuga o verbo no passado perfeito. Sempre vem com o gerúndio: “estou fazendo”, ”estou pensando”, “estou buscando”, “estou planejando”, ”estou vendendo”, e por aí vem a infinidade de gerúndios que ele devolve toda vez que é cobrado ou instado a dar relatório sobre suas atividades.

Ele nunca termina nada! É um começa tudo, termina nunca. Ele tem a capacidade de se empolgar instantaneamente com qualquer coisa, idéia, novidade, produto, trabalho, missão, mas, pouco tempo depois, o entusiasmo vai embora com a mesma velocidade com que chegou.

Estes me fazem lembrar do sábio Cirino, bóia fria negro, com quem aprendi, na infância, algumas lições que jamais esqueci.

Ele dizia: ”tem gente que é como fogo no canaviá. Quando pega fogo é uma beleza, uma iluminação que se vê de longe. Mas o fogo dura pouco e quando apaga, é só sujeira que deixa”.

Outra do Cirino: “árvore que cresce rápido tem madeira fraca: quebra no primeiro vento”.

Tive um colega, pastor, que era um tipo diferente de gerúndio: ele sonhava em fazer alguma coisa, pensava um pouco e depois saia contando para todo mundo que estava fazendo o que havia sonhado. Só que não havia movido uma palha para implementar o que havia sonhado. Quando perguntado, via-se madeira fraca. Alegava dificuldades, falta de tempo, falta de recursos, mas sempre na forma gerúndica, nunca terminativa.

Tive um aluno que era outro espécime desta galera: ele imaginava fazer coisas grandiosas. Ao invés de sentar e detalhar o que iria fazer, ele me ligava dos Estados Unidos querendo me convencer a levar adiante o que estava sonhando.

Eu dizia: “por que você mesmo não faz?” Ele me respondia: “você tem mais habilidade para gerenciar estas coisas”. Ele nunca realizou nada e na andropausa está depressivo porque não tem nada para mostrar aos filhos e netos.

Tive outro aluno que era tão detalhista que passava horas e dias trabalhando no detalhamento de um plano que tinha em mente. Ele vinha com um monte de papel, desenhos, planilhas, cronograma, etc.  Explicava em detalhes e tinha resposta para tudo. Nunca o vi realizando nada e quando o encontrei algum tempo depois, ainda era o mesmo. Sonhador, perfeccionista, sem ser realizador ou mesmo realista.

Há os que vêm com todo o arroubo possível, falando maravilhas das coisas que quer fazer e tentando convencer a entrar com ele na empreitada. A melhor técnica é pedir que ele elabore um projeto completo, com etapas, cronograma e custos. Você diz: ”quando você tiver isto pronto, volte para conversarmos”. Há alguns que estou esperando há décadas.

Há os que, empolgados com qualquer novidade, abraçam tudo o que aparece. Como se diz no espanhol: ”abrazam mucho, apretan poco”. Atiram em todos os pássaros e erram quase todos os tiros. Têm dificuldade em estabelecer prioridades, eleger o que importa, o que é factível.

Ichak Adizes, consultor renomado, diz que são os Incendiários: sonhadores, imaginários, inventores de coisas e métodos, cada dia têm uma idéia nova que vai resolver todos os problemas da família, da igreja, da empresa ou do mundo. Ele bota todo mundo para correr atrás das suas pirotecnias. Ao novo dia, as idéias de ontem serão abandonadas por outra melhor que acabou de ter. É especialista em criar úlceras em todos. Acredita que será reconhecido pelas idéias geniais que tem.